Insights

Brasil ilustração de redemoinho

06.01.26
Lições e aprendizados

O que apoiar a educação escolar indígena tem nos ensinado

Dandara Tinoco, gerente sênior de comunicação (representante)

Paulo Shinji Yoshimoto, coordenador do Projeto de Apoio à Educação Escolar Indígena

Grupo de organizações indígenas e suas lideranças Brasil. Crédito: Oziel Ticuna.
Organizações indígenas se reuniram em um encontro promovido pela Imaginable Futures em abril de 2026. Crédito: Oziel Ticuna.

Esta publicação foi escrita originalmente em português.

Criada na luta do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI), a frase “Educação é um direito, mas tem de ser do nosso jeito” sintetiza a defesa de escolas que respeitem e perpetuem os modos de vida indígenas. Valorizar esses saberes representa a correção de injustiças históricas, mas também a possibilidade de ampliar o repertório da sociedade sobre como enfrentar crises que afetam a todos e todas nós..

Essa reflexão faz parte dos aprendizados que a Imaginable Futures vem acumulando ao longo de quatro anos apoiando a educação escolar indígena (EEI), um campo historicamente negligenciado pelo investimento social privado. Compartilhamos aqui algumas dessas lições — ainda iniciais — na esperança de contribuir para o fortalecimento desse ecossistema e estimular outras formas de apoio ao campo. 

Antes da invasão européia, milhões de indígenas viviam no território hoje chamado Brasil, com sistemas sociais, culturais, políticos e educacionais próprios. Ao longo dos séculos de colonização, a escola foi frequentemente utilizada como instrumento de assimilação, impondo línguas, valores e conhecimentos europeus enquanto deslegitimava saberes indígenas.

A Constituição de 1988 representou uma inflexão importante ao reconhecer o direito dos povos indígenas a uma educação escolar específica e diferenciada. A educação escolar indígena passou então a ser orientada por princípios como autonomia, autodeterminação, pluralidade e valorização dos conhecimentos indígenas, assumindo caráter comunitário, intercultural e multilíngue.

Apesar dos avanços, muitos desses direitos seguem distantes da realidade. Apenas 16% das escolas indígenas oferecem ensino médio, obrigando estudantes e famílias a deixarem seus territórios para continuar os estudos. Persistem problemas de infraestrutura, ausência de transporte adequado, escassez de materiais pedagógicos produzidos nas línguas indígenas, além da precarização do trabalho docente e de episódios recorrentes de racismo e violência.

Comunidades, organizações e o movimento indígena vêm construindo respostas potentes para esses desafios. Além de incidirem sobre a criação e implementação de políticas públicas, produzem soluções próprias, articuladas aos territórios e às formas indígenas de produzir conhecimento, ensinar e viver coletivamente.

Ainda assim, organizações que atuam com educação escolar indígena permanecem profundamente subfinanciadas. Estudo realizado pelo Instituto Plurinacional de Pesquisadores e Pesquisadoras Indígenas (INPPEI), pela Imaginable Futures e pelo FNEEI mostrou que nove em cada dez organizações enfrentam dificuldades para acessar recursos, enquanto sete em cada dez operam com menos de R$ 50 mil anuais. O dado chama atenção em um país em que a educação concentra mais de um terço dos investimentos sociais privados, como alertamos recentemente em artigo publicado no Nexo.

Foto dos grupos indígenas FNEEI e FOREEIA defendendo mudanças no Brasil
O Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI) defende mudanças na educação indígena, 2025.

Além do financiamento: lições sobre educação, participação e confiança

Foi nesse contexto que a Imaginable Futures iniciou, em 2022, seu apoio institucional ao FNEEI. Desde então, apoiamos chamadas conduzidas por parceiros como Fundo Casa, Fundo Podáali e Instituto Unibanco, além de oferecer apoio direto a organizações indígenas regionais na estruturação de seus departamentos de educação. Já é possível perceber resultados importantes desse fortalecimento coletivo. O FNEEI esteve diretamente envolvido na articulação que contribuiu para a aprovação da Política Nacional de Educação Escolar Indígena nos Territórios Etnoeducacionais (PNEEI-TEE), lançada em 2025, e para o avanço da proposta da Universidade Federal Indígena. Organizações apoiadas também impulsionaram consultas territoriais, construíram espaços de articulação regional e fortaleceram o diálogo com secretarias estaduais e municipais de educação.

Mais do que resultados específicos, porém, esse percurso tem transformado nossa compreensão sobre educação, financiamento e participação.

Um dos aprendizados mais importantes é que apoiar a educação escolar indígena significa atuar na interseção entre educação, cultura, território, democracia e meio ambiente. Em muitos contextos, a ausência de escolas adequadas leva jovens a deixarem suas comunidades para estudar, enfraquecendo os vínculos territoriais e expondo esses territórios a pressões de mineração, desmatamento e invasões. Fortalecer a educação escolar indígena também significa fortalecer a permanência dos povos em seus territórios e as formas de vida que historicamente contribuíram para sua preservação.

Acreditamos que reconhecer a educação escolar indígena não como uma questão de nicho, mas como um campo estratégico para o nosso futuro coletivo, pode ampliar as possibilidades do próprio investimento social privado.

Também aprendemos que processos participativos têm seu próprio tempo. Em muitas iniciativas apoiadas, propostas foram construídas por meio de consultas amplas, envolvendo mulheres, jovens, crianças, lideranças e anciãos. São processos que frequentemente desafiam a lógica acelerada da filantropia tradicional, mas que produzem maior impacto, legitimidade coletiva e conexão com as realidades locais.

Outro aprendizado importante é que o movimento indígena possui uma estrutura própria de governança, planejamento e construção de legitimidade. Para muitas organizações, pode ser mais estratégico investir em formas de fortalecimento que vão além de uma lógica centrada exclusivamente em captação de recursos e institucionalização, priorizando processos coletivos e enraizados nos territórios. Isso exige dos financiadores disposição para construir relações baseadas em confiança, flexibilidade e aprendizado mútuo.

Ao longo desse percurso, também passamos a compreender de maneira mais profunda como diferentes cosmovisões podem ampliar o debate sobre educação. A educação escolar indígena frequentemente articula aprendizagem, vida comunitária, espiritualidade, território e cuidado com a natureza de maneira inseparável. Em vez de tratar a educação apenas como preparação para o mercado de trabalho, muitas experiências indígenas nos convidam a pensar a formação humana em relação à coletividade, ao equilíbrio ambiental e à continuidade cultural.

Esse processo ainda está em curso, e temos certeza de que seguimos aprendendo. Mas acreditamos que reconhecer a educação escolar indígena não como um nicho, e sim como um campo estratégico para o nosso futuro coletivo, pode ampliar as possibilidades de atuação do próprio investimento social privado. Fortalecer essas iniciativas significa não apenas garantir direitos historicamente negados, mas também apoiar modos de organização, participação e produção de conhecimento fundamentais para encontrarmos alternativas mais integradas e duradouras para enfrentar os desafios do nosso tempo.

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