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Brasil ilustração de redemoinho

11.26.24
Histórias de mudança

Pesquisa chama atenção para necessidade de mais recursos para projetos liderados por mulheres negras no Brasil

Entrevista com Luana Batista, gerente de pesquisa do Fundo Agbara

Imaginable Futures

Luana Braga Batista

Uma pesquisa prestes a ser lançada no Brasil demonstrará em números um paradoxo para o qual organizações negras vêm há tempos chamando atenção: embora mulheres negras sejam líderes em levar soluções para seus territórios, elas enfrentam enormes desafios em angariar recursos para seus projetos.

O estudo, "Raça e Filantropia", será divulgado pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra do Fundo Agbara (NUPEMN), o primeiro fundo filantrópico para mulheres negras do Brasil e parceiro da Imaginable Futures.

Esse é o maior mapeamento quantitativo de organizações negras realizado até o momento no país. Cerca de 800 iniciativas foram ouvidas. O estudo mostra onde as organizações estão localizadas, qual o perfil de quem compõe suas equipes, quais atividades realizam e os desafios que enfrentam. O projeto conta ainda com um curta-metragem que apresenta as histórias por trás dos números. A pesquisa terá também uma versão em inglês publicada em março de 2025.

Dias antes do lançamento do estudo e do documentário, Dandara Tinoco conversou com Luana Batista, gerente de pesquisa do Nupemn, que compartilhou parte dos achados da pesquisa. A seguir, compartilhamos trechos da entrevista, que pode ser assistida na  íntegra aqui.

Como surgiu a ideia de produzir esta pesquisa?

A ideia da pesquisa nasce dos anseios do Fundo Agbara de ter um lugar de produção de conhecimento. É importante a gente pensar no ecossistema da filantropia para entender os nossos limites e também, a partir disso, produzir advocacy pela garantia da nossa missão, que é a emancipação e autonomia de mulheres negras por meio da justiça econômica.

A gente fez um processo de escuta muito rigoroso para entender quais eram os nossos anseios, dúvidas e onde o Agbara queria atuar para trazer ainda mais excelência para sua prática. Então, pensamos: o principal campo de atuação do Agbara é dentro do campo da filantropia e raça, e angariar recursos ainda tem sido uma discussão.

Nada mais justo do que trazer para o campo um mapeamento de organizações negras que atuam na base. A pesquisa é inédita e traz dados muito promissores nesse sentido. Entendemos que a partir disso temos uma base de dados primários muito robusta que permite com que a gente faça análises secundárias e terciárias e desenvolva outras pesquisas.

Estamos desenvolvendo pesquisas racializadas e generificadas. A gente acredita que só alcançamos justiça social a partir do momento em que a gente consegue produzir políticas e práticas com equidade de raça e de gênero.

Uma pesquisa desse tamanho, feita em um país com um tamanho continental e muita diversidade regional como o Brasil, pode ser muito desafiadora. Quais foram os principais desafios?

O principal desafio foi captar recursos e conseguir que as pessoas acreditassem que a pesquisa poderia ser real. A gente se propõe a fazer um mapeamento nacional de organizações negras nesse país continental e produzir uma análise a partir disso. Muita gente olhou e pensou que era uma loucura.

O segundo principal desafio foi a contratação de pesquisadores. Abrimos vagas para contratar 12 pesquisadores e, no fim, recebemos 575 inscritos. A seleção foi um desafio, pois tinham muitas pessoas potentes.

Outro desafio foi ir a esses territórios. Visitamos 11 estados brasileiros e 75 organizações em dois meses, um prazo curto de viagens extensas, sem voltar para casa, indo de um lugar para o outro, mas uma experiência incrível. Outro desafio foi produzir uma pesquisa dessa proporção, com o vigor de uma tese de doutorado, só que não tempo muito menor.

Por fim, a terceira fase da nossa pesquisa consistia em entrevistar o setor de investimento social privado (ISP), os filantropos, e não conseguimos a mesma proporção de retorno que tivemos com as organizações, no sentido de dialogar e obter respostas para nosso formulário. Isso talvez diga sobre qual importância e legitimidade do tema raça para esse setor.

Qual é a mudança que vocês querem provocar no setor de investimentos social privado com o lançamento dos resultados dessa pesquisa?

Se eu pudesse resumir isso em uma frase, eu diria: Quero mais recursos para as organizações lideradas por mulheres negras. São essas mulheres que constroem realidades com suas próprias mãos todos os dias em suas comunidades, garantindo direitos para muitas pessoas. Muitos estão estudando, comendo, trabalhando e tendo acesso a lazer, saúde e educação graças à organização de pessoas em territórios específicos. Elas estão se organizando no presente para garantir um futuro. Precisamos repensar como o dinheiro em nossa sociedade está sendo alocado.

Um estudo recente mostra que o setor sem fins lucrativos gera cerca de 6 milhões de empregos no Brasil. Nossa pesquisa mostra que 9 em cada 10 mulheres das organizações que entrevistamos são voluntárias, o que significa que elas não têm emprego formal. Então, para onde estão indo esses milhões de empregos?

Isso nos ajuda a refletir não apenas sobre o campo da filantropia, mas também sobre política, economia, assistência, alocação de recursos, democracia, justiça social, transformação e impacto.

Quero mais recursos para organizações de mulheres negras. Essas mulheres são as que estão construindo a realidade com as próprias mãos todos os dias em seus territórios e garantindo uma série de direitos para uma série de pessoas. Muita gente está estudando, comendo, trabalhando, tendo acesso a lazer, saúde e educação graças a pessoas organizadas em determinados territórios.

Luana Batista, gerente de pesquisa do Fundo Agbara

Além de lançar a pesquisa no Brasil agora, vocês planejam lançar a pesquisa internacionalmente, nos Estados Unidos, no ano que vem. Por que isso é importante?

Queremos internacionalizar o que estamos produzindo aqui. E isso também passa por uma questão de financiamento. A gente tem percebido que, cada vez mais, tem sido mais fácil conseguir financiamento para (projetos relacionados a) raça fora do Brasil do que dentro do Brasil. Para a gente conseguir mais investimentos, para incidir mais nossa prática, atender mais mulheres e alcançar a nossa missão, a gente precisa internacionalizar o que a gente tem produzido no nosso país. O Brasil é o lugar com a maior população negra fora de África e tem passado por processos sociais, políticos, culturais e históricos que fazem com que a gente não tenha acesso a uma série de coisas. Precisamos reverter esse quadro, a gente precisa de investimento. Fazer esse lançamento internacional faz parte de uma estratégia também de captação para que a gente possa incidir cada vez mais dentro do nosso território.

Além da pesquisa, vocês vão lançar um documentário com relatos de representantes das organizações que foram ouvidas na pesquisa. O que o documentário traz de diferente da pesquisa?

A ideia do documentário é humanizar os dados da pesquisa. Os gráficos e as tabelas são muito importantes, por trazerem uma análise objetiva da realidade para dialogarmos com os nossos financiadores, mas o documentário vem para trazer as nuances, as emoções, o contexto que dá vida às informações que vamos trazer no relatório. É uma estratégia de criar empatia, trazendo a diversidade que compõe esse país, quem são as pessoas que fazem parte desses territórios, quais são as dificuldades que estão para além do que os gráficos e as tabelas conseguem computar.

Por exemplo, num gráfico, eu não consigo demonstrar para você que eu precisei pegar um avião, um ônibus e uma bicicleta e uma moto para chegar num quilombo, que não tem acesso à internet, mas que faz um trabalho extraordinário. E que nunca conseguiu captar recursos em um edital por dificuldades de mobilidade. Quando a gente está pensando nos editais, a gente está pensando nessas dificuldades? Acho que o documentário tem a capacidade de trazer problemas que estão além do nosso imaginário.


Acreditamos que as evidências apresentadas pela pesquisa do Fundo Agbara apresentam elementos cruciais para o ecossistema de filantropia, trazendo atenção para desafios que precisam ser mitigados e oportunidades para que o apoio a organizações lideradas por mulheres negras seja não apenas feito de maneira mais ampla, mas também mais justa.

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