Insights

Brasil ilustração de redemoinho

11.18.22
Valores como raiz

Renovando nosso compromisso com a equidade racial no Brasil

Fabio Tran, Vice-Presidente, Diretor do Programa Brasil (Representante)

Samuel Emilio, gerente de programa (representante)
Crédito da ilustração: Valentina Fraiz
Crédito da ilustração: Valentina Fraiz

A verdadeira sabedoria é entender que não abrimos mão de nosso próprio conhecimento quando aprendemos com os outros - uma ideia avançada pelo líder e estudioso quilombola Nego Bispo.

Em vez disso, ele diz que expandimos nossa própria sabedoria por meio de encontros e diálogos com outras pessoas. Bispo chama isso de sabedoria orgânica: a capacidade das comunidades negras e indígenas de estarem na confluência de várias identidades, culturas e visões de mundo - como a natureza está - em oposição à sabedoria sintética predominante que reduz as coisas a uma única verdade.

Nosso trabalho no Brasil passou por uma mudança substancial nos últimos dois anos, principalmente porque, como Bispo argumenta, tivemos a sorte de encontrar e dialogar com muitos líderes indígenas e negros que estão comprometidos com o avanço da igualdade racial na educação.

O que aprendemos

Nos últimos dois anos, continuamos a desenvolver e atualizar nossa estratégia com uma abordagem emergente e sistêmica, informada e criada em conjunto com as comunidades de estudantes e famílias que pretendemos atender. Os pilares de nossa estratégia foram construídos em conjunto e com a contribuição de centenas de pessoas de comunidades indígenas, negras, asiáticas e brancas. Também tivemos a oportunidade de nos reunir semanalmente com quatro lideranças indígenas e negras desse grupo, que atuaram como nossos consultores de equidade racial. Recentemente, nós os convidamos para nos aconselhar sobre toda a nossa estratégia no Brasil, não apenas sobre equidade racial.

Entendemos que essas reuniões são apenas um começo e nunca serão suficientes, pois o exercício de romper com padrões históricos de exclusão é diário e acontece em todos os detalhes - grandes e pequenos - de nossas ações.

 

Por meio desse processo de cocriação de nossa estratégia, construímos um mapa de sistemas que ilustra onde estão presentes as formas persistentes de desigualdade racial na educação brasileira. Construímos nosso plano de trabalho para 2023 com base nesse mapa, optando por apoiar iniciativas que:

  1. Lutar por ações afirmativas na educação de acordo com os princípios da legislação brasileira;
  2. Fortalecer a identidade e a autoestima dos alunos indígenas e negros do sistema educacional público; e
  3. Proporcionar espaços para o diálogo e comunidades de prática com nossos parceiros e pares na filantropia para manter os princípios de justiça social, equidade, diversidade e inclusão (JEDI) na vanguarda de nosso trabalho coletivo.

Também entendemos que as organizações lideradas por pessoas negras e indígenas recebem menos financiamento em comparação com as organizações lideradas por pessoas brancas. Apoiamos instituições como o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), o Instituto Geledés, o Instituto Peregum e o Fórum Nacional de Educação Escola Indígena (FNEEI). Também financiamos o Edital Educação e Identidades Negras: equidade Racial, em parceria com o Fundo Baobá e a Fundação Lemann, que incentiva organizações, grupos e coletivos negros que trabalham para combater o racismo e promover equidade racial equidade educação, para que todos os alunos possam prosperar.

Para seguir em frente, acreditamos que nenhuma transformação é possível no Brasil com apenas uma fração da população representada. Nossos objetivos só serão alcançados com a participação constante e ativa de lideranças e educadores negros e indígenas, e não com consultas ocasionais.

Gostaríamos de ter percebido mais cedo os padrões de desigualdade e racismo que são tão gritantes no Brasil e pedimos desculpas aos nossos parceiros e amigos indígenas e negros por termos chegado a este trabalho agora. Embora tenhamos aprendido muito com esse processo, sabemos que a jornada continua e estamos comprometidos com o trabalho contínuo necessário para sermos parceiros eficazes e solidários na mudança.

"Nosso trabalho no Brasil passou por uma mudança substancial nos últimos dois anos, principalmente porque, como Bispo argumenta, tivemos a sorte de encontrar e dialogar com muitas lideranças indígenas e negras que estão comprometidas com o avanço da equidade racial na educação."

Perspectivas para o futuro

Embora tenhamos um longo caminho a percorrer, estamos confiantes de que devemos continuar a evoluir a prática da filantropia para promover equidade racial no que e no como. É por isso que incentivamos outras fundações a reconhecer os erros do passado, a criar estratégias emergentes com a ajuda daqueles a quem queremos servir, a atuar em problemas complexos com uma abordagem sistêmica e a ceder o poder aos povos indígenas e negros, como a fonte definitiva de transformação e inspiração. Acreditamos que a maneira como agimos define os resultados que alcançaremos. Convidamos nossos colegas da filantropia a aprofundar ainda mais nossas práticas equidade racial, compartilhando seus aprendizados conosco.

Parafraseando Giovani Rocha, um de nossos consultores equidade racial: A filantropia pode até considerar que está correndo riscos ao investir na equidade racial, mas essa é uma percepção equivocada. Se a filantropia falhar, é impossível imaginar que causará um dano maior do que o dano que a sociedade já está causando aos indígenas e aos negros. Precisamos agir agora, com urgência e sem medo.

"Parafraseando Giovani Rocha, um de nossos consultores equidade racial: A filantropia pode até considerar que está correndo riscos ao investir na equidade racial, mas essa é uma percepção equivocada. Se a filantropia falhar, é impossível imaginar que causará um dano maior do que o dano que a sociedade já está causando aos povos indígenas e negros."

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