Brasil
Um quilombo em Pernambuco ensina lições sobre educação e transformação social
Brasil
Imagine uma comunidade onde crianças e adolescentes aprendem com sua própria história coisas como desenvolver autonomia, se organizar coletivamente para transformar o território e viver em harmonia com a natureza. Essa é a realidade de Conceição das Crioulas, um Quilombo1 com aproximadamente 4.000 habitantes no município de Salgueiro, no semiárido pernambucano.
De acordo com os moradores, o quilombo foi fundado por seis mulheres negras que chegaram à região no século XVIII. Embora esse ainda fosse um período de escravidão no Brasil, os relatos dão conta de que elas já eram livres e compraram terras com o que obtiveram do plantio, colheita e venda de algodão.
A saga das fundadoras e as lições de liderança e
organização que ela oferece aparecem por toda a parte na comunidade: em muros de escolas, textos que acompanham bonecas de caroá — planta nativa da região — e versos entoados por crianças e anciãos.
A preservação da memória de geração em geração esteve no centro da 4ª edição do Encontro com as Artes, as Lutas, os Saberes e os Sabores, realizado em julho pela Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC). Professores, estudantes, pesquisadores e lideranças locais participaram de mesas, caminhadas, oficinas e apresentações culturais, reafirmando o território como um espaço vivo de aprendizado.

No Brasil, a educação escolar quilombola é uma modalidade específica da Educação Básica,
fruto da luta dos quilombolas por um ensino diferenciado. Regulamentada por diretrizes nacionais, ela deve se apoiar na memória coletiva, nas práticas culturais, nas tecnologias e nas formas de produção do trabalho, além de elementos como a territorialidade, que compõem o patrimônio das comunidades quilombolas.
Alguns números revelam os desafios dessa modalidade. O Censo Escolar de 2020 registra 2,5 mil escolas quilombolas, contra 6,5 mil comunidades existentes, segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) — ou 5,8 mil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apenas 2% oferecem ensino médio, o que obriga jovens a percorrer longas distâncias para estudar. Entre 2007 e 2020, apenas 5% dos professores quilombolas receberam formação específica em relações
étnico-raciais. Adicionalmente, somente cerca de 30% das escolas quilombolas têm acesso a materiais pedagógicos adaptados ao contexto sociocultural dessas comunidades.
Uma exceção nesse contexto, Conceição das Crioulas oferece lições sobre como a educação deve incluir visões de mundo e necessidades dos territórios, se enraizando na realidade na qual crianças e adolescentes estão inseridos. Abaixo, alguns aspectos particulares dessa experiência bem-sucedida:
Em 2003, as escolas de Conceição das Crioulas e a Associação Quilombola decidiram criar o Projeto Político-Pedagógico do Território Quilombola (PPPTQ), em diálogo com a comunidade. O processo envolveu um levantamento com cerca de 300 pessoas do território, além de entrevistas, seminários, oficinas e encontros com lideranças jovens e mais velhas, pais, mães e
crianças. O objetivo era definir o que a comunidade entendia por Educação Quilombola e Educação Escolar no território, estabelecendo prioridades. O plano resultou, por exemplo, na construção de uma escola de ensino médio e na prática de nomear equipamentos públicos com nomes de pessoas da comunidade.
Na década de 1990, Conceição ganhou uma escola de ensino fundamental II e, hoje, oferece educação quilombola da creche ao ensino médio. Essa estrutura garante que crianças e adolescentes possam estudar perto de casa, sem precisar deixar o território, assegurando acesso contínuo a toda a educação básica.
Em 2011, foi aprovada a Lei Municipal nº 1.813/2011, determinando que todos os docentes das escolas quilombolas fossem oriundos do próprio quilombo. A medida incluiu o que possivelmente é o primeiro concurso público exclusivo para quilombolas no Brasil. A iniciativa atendeu a uma demanda histórica dessas comunidades: que a educação seja conduzida e
fortalecida por seu próprio povo.
A comunidade investe na formação de professores, coordenadores e diretores quilombolas, como uma prática permanente e contínua. Os conteúdos incluem relações étnico-raciais e estratégias para aprimorar a educação no território. Atualmente, todos os professores têm formação universitária e, no mínimo, uma pós-graduação lato sensu ou mestrado.
A experiência de Conceição agora serve de inspiração para outros quilombos2 desenvolverem suas próprias metodologias e recursos em um projeto do Coletivo de Educação da CONAQ, apoiado pela Imaginable Futures. Esse trabalho inclui a construção participativa de projetos político-pedagógicos, a formulação de currículos, a produção de materiais, e a formação de professores e gestores.
"Nós quilombolas temos o compromisso de levar os avanços que temos aqui para a maior quantidade possível de quilombos. A gente sonha que todas as comunidades escolares do Brasil tenham o que temos aqui"
Fabiana Vencezlau, Coordenadora de Projetos da CONAQ
A história e as práticas de Conceição das Crioulas nos convidam a repensar teorias e metodologias educacionais, colocando a vida comunitária no centro da escola. É uma
confluência bonita entre educação e transformação social.