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Alocação de recursos para promover a equidade racial na educação
Cinco lições aprendidas com o Brasil
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Cinco lições aprendidas com o Brasil
A criação de um comitê de especialistas, a representação e o suporte de médio prazo estão entre os insights obtidos com o desenvolvimento de uma chamada de proposta para apoiar organizações negras e indígenas.

As relações étnico-raciais são a base sobre a qual a sociedade brasileira foi construída, impactando todas as áreas, inclusive seu sistema educacional. Embora as organizações negras e indígenas desempenhem um papel central na proposição de práticas e políticas públicas que promovam equidade racial na educação e melhorem os resultados dos alunos, elas recebem apenas uma pequena fração do capital filantrópico no Brasil.
Este ano, em parceria com o Instituto Unibanco, lançamos o Edital de Fortalecimento Institucional - equidade Étnico-Racial para selecionar 20 organizações da sociedade civil dos movimentos negro, indígena e quilombola, oferecendo apoio financeiro, assistência ao desenvolvimento institucional, mentoria e compartilhamento de práticas e conhecimentos. O objetivo é fortalecer seu impacto nos territórios em que atuam.
A preparação da convocação envolveu ampla reflexão e diálogo sobre os princípios e práticas do Imaginable Futures, do Instituto Unibanco e do setor filantrópico. Com o objetivo de identificar lacunas e oportunidades, tivemos em mente como nós, como financiadores, podemos ampliar nosso papel na construção de uma sociedade mais equitativa em um país onde o sistema educacional oferece oportunidades apenas para alguns privilegiados.
De acordo com o Observatório da Branquitude, as escolas de educação básica com melhor infraestrutura matriculam principalmente alunos brancos (69%). Por outro lado, mais da metade da maioria das escolas negras não possui biblioteca (50,2%), laboratório de informática (53,1%) e instalações esportivas (51,7%). Consequentemente, os povos indígenas têm a maior taxa de analfabetismo, e o analfabetismo entre os negros é mais do que o dobro da taxa dos alunos brancos. Como resultado, foi essencial garantir que os grupos mais próximos a esses alunos pudessem participar de forma significativa da chamada.
Thaís Dias Luz, Instituto Unibanco"Essa medida é essencial, pois garante que lideranças dessas comunidades, que muitas vezes enfrentam barreiras significativas para acessar recursos, possam participar e se beneficiar diretamente. Com esse foco, a convocação inspira outras organizações a adotarem uma abordagem mais inclusiva e representativa", disse Thaís Dias Luz, Analista Sênior de Estratégias Educacionais do Instituto Unibanco.
A Imaginable Futures e o Instituto Unibanco não desenvolveram a chamada sozinhos. Um comitê representativo, composto por mulheres negras, indígenas e quilombolas e especialistas em educação étnico-racial, participou das decisões relacionadas aos critérios de seleção das organizações apoiadas e prestará apoio pedagógico após a seleção. Fazem parte desse comitê Edneia Gonçalves, socióloga, educadora e coordenadora executiva adjunta da Ação Educativa; Givânia Maria da Silva, professora, pesquisadora e coordenadora do CONAQ (Coletivo Nacional de Educação da Coordenação Nacional de Quilombos); Jussara Santos, doutora em Educação, professora e consultora do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades); e Rita Potyguara, indígena do povo Potyguara e diretora da sede brasileira da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).
Jussara Santos, CEERT"A chamada está sendo realizada por meio de construção coletiva, em que pesquisadores negros, indígenas e quilombolas foram ouvidos e participaram da tomada de decisões sobre o desenho e o escopo da chamada", explicou Jussara Santos.
Ser liderado por indivíduos negros, indígenas ou quilombolas foi uma prioridade para a participação institucional. Também decidimos reservar metade das vagas oferecidas para organizações indígenas e quilombolas, apoiando assim o conhecimento tradicional. Essa decisão decorre do reconhecimento de que essas organizações têm sido historicamente subfinanciadas, apesar de sua riqueza de experiências que levam a soluções e abordagens eficazes. Acreditamos que a diversidade de conhecimentos é fundamental para promover a equidade racial para todos os alunos.
Rita Potyguara, Flacso"Tal decisão foi tomada considerando suas realidades sócio-históricas, econômicas e culturais, uma vez que esses grupos apresentam indicadores de desigualdade mais acentuados. Por exemplo, os indígenas têm a maior taxa de analfabetismo da população brasileira, evidenciando os efeitos perversos da interseccionalidade entre raças, etnias, pobreza e analfabetismo que caracterizam as desigualdades em nosso país", disse Rita Potyguara.
Optamos por apoiar organizações com um orçamento de receita anual de até R$ 1 milhão (cerca de US$ 182.500). O setor filantrópico geralmente concentra o financiamento em organizações maiores com redes pré-estabelecidas, negligenciando as organizações locais de base que são repositórios de sabedoria. Quando a educação é contextualizada na comunidade e envolve ativamente os membros da comunidade, a qualidade do aprendizado é fortalecida.
Na mesma linha, abrimos a participação no processo para organizações não registradas com CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas), desde que estejam dispostas a se formalizar após a seleção. O suporte técnico para esse processo será oferecido gratuitamente às organizações selecionadas. Dessa forma, esperamos contribuir para a construção necessária e factível de políticas públicas de baixo para cima.
Edneia Gonçalves, Ação Educativa"A possibilidade de participação de coletivos e organizações sem CNPJ no momento da inscrição significa a inclusão de um grande grupo que sempre foi excluído por falta de formalização. A oportunidade de formalização após a seleção é um caminho potencial para o real fortalecimento institucional, permitindo que essas organizações não apenas continuem existindo, mas também participem de outras chamadas e acessem outras formas de apoio", disse Edneia Gonçalves.
O financiamento para organizações da sociedade civil geralmente se concentra em projetos específicos por um período limitado. Orientados pelos princípios da filantropia baseada na confiança, optamos por permitir que as organizações usem os recursos como acharem adequado para desenvolver sua estrutura interna por meio de ações como gestão de recursos humanos, comunicação e sustentabilidade financeira. Além disso, o apoio financeiro de R$ 100 mil por ano será mantido por três anos, de 2025 a 2027. Além dos recursos financeiros, as entidades selecionadas terão acesso a mentorias, comunidades de prática e caminhos para o fortalecimento institucional com foco em liderança, gestão, comunicação e sustentabilidade financeira, entre outras áreas.
"Cada organização selecionada receberá recursos financeiros para o fortalecimento institucional, o que lhes permitirá aplicar esses fundos de forma mais eficaz, sem necessariamente destiná-los a ações específicas do projeto. Esse modelo de apoio abrangente pode inspirar outras fundações a fornecer recursos que ajudem as organizações a crescer de forma sustentável e eficaz", explicou Thaís Dias Luz.
A convocação reconhece o papel crucial que as organizações negras e indígenas desempenham na construção de uma sociedade mais justa. Estamos selecionando iniciativas locais que exemplificam a mudança que pretendemos promover em todo o sistema. Forneceremos apoio para a formação de comunidades de prática, bem como para o monitoramento e a avaliação do seu desenvolvimento e do cumprimento das metas. Dessa forma, as soluções que contribuíram diretamente para os territórios podem ser multiplicadas por meio do aprendizado compartilhado. Esperamos também que o compartilhamento dessas experiências atraia novos apoiadores que compartilhem nossa crença de que a filantropia desempenha um papel único na criação de uma sociedade mais justa.
Orientados pelos princípios da filantropia baseada na confiança, optamos por permitir que as organizações usem os recursos como bem entenderem para desenvolver sua estrutura interna por meio de ações como gerenciamento de recursos humanos, comunicação e sustentabilidade financeira.