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Brasil ilustração de redemoinho

12.02.20
Lições e aprendizados

A maioria dos estudantes brasileiros está conectada à escola durante a pandemia

No entanto, ainda há desafios e oportunidades, de acordo com um importante grupo de pesquisa

como usar uma máscara de sinais

As escolas são muito mais do que prédios. Elas são um lugar para o aprendizado dos alunos, a reunião da comunidade, a conexão entre colegas e a manutenção das necessidades básicas dos estudantes. Durante grande parte de 2020, em detrimento dos estudantes, das famílias e das comunidades, as escolas no Brasil e em todo o mundo foram fechadas e o aprendizado foi interrompido. Além dos devastadores milhões de vidas perdidas, inúmeros desafios sociais e econômicos surgiram com a pandemia. Entre eles, sem dúvida um dos mais significativos - e que afetará profundamente os próximos anos - é o acesso equitativo e consistente ao aprendizado.

Em parceria com a Fundação Lemann e o Itaú Social, contratamos o Datafolha, um dos principais grupos de pesquisa especializados em pesquisas de opinião pública no Brasil, para investigar o impacto do fechamento de escolas sobre os alunos e suas famílias. Os dados estão sendo coletados desde maio e continuarão até dezembro de 2020.

As descobertas mais recentes destacam alguns pontos positivos. Embora não tenham sido capazes de medir totalmente a qualidade da experiência de aprendizagem, isso sugere que o acesso à educação aumentou à medida que a pandemia progrediu. De acordo com os dados coletados em setembro de 2020, 92% dos alunos brasileiros se envolveram em alguma forma de atividade escolar, seja on-line ou por meio de materiais impressos, o que representa um aumento de 13 pontos percentuais em comparação com a pesquisa de julho de 2020. Da mesma forma, a taxa de engajamento aumentou, com 80% dos alunos tendo concluído algum tipo de atividade escolar na última semana, em comparação com 68% em julho. E embora mais de um terço das famílias não tenha conexão com a Internet, professores, escolas e governos, tanto municipais quanto estaduais, conseguiram criar diferentes materiais de aprendizagem além das plataformas de e-learning viáveis, com aulas via rádio, TV ou materiais impressos distribuídos periodicamente.

Desafios persistentes e respostas heroicas

Embora a ampla acessibilidade à educação no Brasil seja um ponto positivo durante esses tempos, as pesquisas também trouxeram à tona indicadores preocupantes de desafios persistentes, como a qualidade variável das aulas remotas, juntamente com o acesso desigual à conectividade e a outros serviços básicos e, talvez pior, a ameaça de evasão escolar em massa. Juntamente com esses desafios, os dados destacaram histórias incríveis de estudantes e educadores que persistiram diante da adversidade.

Desafios do aprendizado remoto

Muitas famílias da amostra da pesquisa de 1021* expressaram preocupações e desafios com o ensino remoto. Apesar da ampla disponibilidade, apenas 64% indicaram que as aulas remotas eram suficientes para garantir o aprendizado dos alunos. Embora a maioria das famílias pesquisadas (74%) acredite que as escolas devam permanecer fechadas, mais da metade delas concorda que o ensino remoto trouxe prejuízos ao aprendizado e ao desenvolvimento dos alunos. Os pais também se preocupam com o fato de seus filhos não retornarem à escola: um número alarmante de 30% indicou que os alunos correm o risco de abandonar a escola por medo de não poderem acompanhar as atividades; e um número preocupante de 36% das famílias acredita que seus filhos não retornarão à escola em uma eventual reabertura das instalações.

Desafios com o acesso equitativo por região, status socioeconômico e raça

Embora o aprendizado e o engajamento como um todo tenham aumentado, é fundamental lembrar que esses resultados não estão distribuídos de forma homogênea. De acordo com pesquisas anteriores do Datafolha, o aprendizado e o envolvimento dos alunos variam de acordo com a região, a situação socioeconômica da família e a raça. As desigualdades regionais também são grandes: na região Norte, pouco mais da metade dos alunos (52%) recebeu atividades escolares durante a pandemia, e no Nordeste, 61%. A pesquisa de julho revelou que a porcentagem de alunos considerados em risco de evasão escolar é maior entre os alunos negros, em lares com mais de três alunos, quando as famílias têm menos escolaridade e renda mais baixa, e entre os alunos que precisam compartilhar equipamentos de estudo.

Necessidades básicas do aluno e estabilidade financeira da família

A pandemia não está apenas causando estragos no aprendizado dos alunos, mas também na fome dos alunos e na estabilidade financeira das famílias. A última pesquisa indica que 42% das famílias entrevistadas concordam que a falta de merenda escolar para seus filhos está afetando sua renda. Entendendo o papel da educação na promoção do desenvolvimento integral de seus alunos, várias escolas e redes de ensino utilizaram estratégias complementares para oferecer, entre outros aspectos, alimentação e apoio intersetorial às famílias durante a pandemia.

Os professores desempenham um papel fundamental no engajamento dos alunos

Os professores têm o poder de causar um impacto significativo na aprendizagem e no envolvimento dos alunos durante esse período. Quase todos os entrevistados acreditam que o apoio dos professores é importante ou muito importante para a continuidade do aprendizado em casa e 71% indicaram que começaram a valorizar mais o papel dos professores após o início da pandemia. Enfrentando o desafio de envolver seus alunos remotamente, muitos professores estão explorando diferentes métodos pedagógicos inovadores e implementando um currículo integrado que envolve os alunos e as famílias e, ao mesmo tempo, promove o diálogo com suas realidades.

Desigualdade e preocupações futuras

As pesquisas também levantam uma bandeira não apenas para a experiência de ensino remoto e o acesso desigual ao aprendizado, mas também para a futura reabertura das escolas. Embora 74% das famílias tenham dito que confiam na capacidade das escolas de manter os protocolos de segurança, há uma preocupação compartilhada entre os especialistas em educação e saúde em garantir que todas as escolas sejam realmente seguras para os alunos e profissionais da educação durante a pandemia.

Por exemplo, descobertas recentes publicadas pelo escritório de auditoria municipal de São Paulo, o maior e mais proeminente centro econômico do país, mostraram que mais de 25% das escolas de ensino fundamental da cidade não tinham papel higiênico. A disponibilidade de sabonete também era um problema: Apenas um quarto das escolas tinha sabonete disponível para os alunos. Outros estudos mostram que tanto as instituições públicas de ensino fundamental quanto as de ensino médio no Brasil têm uma das maiores proporções de alunos por professor e de alunos por sala de aula do mundo. Esses dados justificam um foco específico em estratégias para manter o distanciamento social quando as aulas eventualmente retornarem.

É hora de nos concentrarmos na melhoria do acesso e da qualidade e, além disso, na reafirmação das escolas e da educação como base para recriar as sociedades atuais e futuras com base na justiça, na inclusão, na compaixão e na democracia.

Erin Simmons e Nathalie Zogbi, Imaginable Futures

O que vem a seguir?

A publicação e a divulgação de dados são fundamentais para apoiar os governos no diagnóstico e na compreensão dos desafios atuais, e um componente importante do compromisso da Imaginable Futuresde ajudar o Brasil a desenvolver um sistema educacional mais equitativo durante e após a pandemia. As dificuldades são muitas, mas, conforme medido pela pesquisa, a população brasileira valoriza e acredita na escola brasileira.

Precisamos continuar a trabalhar de forma colaborativa para ajudar as famílias a envolver seus filhos em atividades de aprendizado e diversificar os materiais, as plataformas e as formas de aprendizado que atendam às diferentes necessidades dos alunos. Precisamos de ações locais coordenadas entre governos estaduais e municipais, escolas, instituições de saúde e outras organizações. Ao mesmo tempo, devemos valorizar os aprendizados positivos de professores, escolas, governos e famílias e garantir não apenas condições seguras para o retorno de todos os alunos, mas também aproveitar esse momento e repensar as práticas pedagógicas e o papel da escola nas comunidades brasileiras. É hora de focar na melhoria do acesso e da qualidade e, além disso, reafirmar as escolas e a educação como base para recriar as sociedades atuais e futuras com base na justiça, na inclusão, na compaixão e na democracia.

*Nota: O Datafolha pesquisou por telefone 1.021 famílias com crianças de 6 a 18 anos de idade, seguindo a estratificação do Censo Educacional Brasileiro de 2019. A amostra foi então ajustada de acordo com diferentes critérios, como a região do país, o nível educacional e a esfera administrativa do sistema escolar, ponderando os resultados quando necessário.

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