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Brasil ilustração de redemoinho

07.23.20
Lições e aprendizados

Mais de um quarto dos estudantes no Brasil não recebeu nenhuma atividade de aprendizagem, revela pesquisa do Datafolha

Usando dados para informar como podemos apoiar estudantes

Folha de dados

A COVID-19 causou estragos no ensino em todo o mundo e o Brasil não é exceção. Apenas um mês após o início do ano acadêmico - que vai de fevereiro a dezembro - estudantes e educadores foram solicitados a ficar em casa, com pouco aviso prévio e poucos planos de como seria o aprendizado nos próximos meses.

Como resultado, mais de um quarto dos alunos no Brasil não recebeu nenhum tipo de atividade de aprendizagem desde o fechamento das escolas, de acordo com o Datafolha em um estudo de pesquisa recente que financiamos em parceria com a Fundação Lemann e o Itaú Social. O principal grupo de pesquisa, especializado em sondagem de opinião pública, também constatou que as desigualdades regionais são grandes: na região Norte, pouco mais da metade dos alunos (52%) recebeu atividades escolares na pandemia, e no Nordeste, 61%. Em contraste, no Sul, 94%, seguido pelo Sudeste, 85%, e pelo Centro-Oeste, 80%.

Como em outras partes do mundo, o ensino à distância coloca em desvantagem as pessoas com menos recursos. Um terço das residências dos alunos não tem conexão com a Internet; nas áreas rurais, esse número sobe para 51%. Essa falta de acesso está impedindo muitos alunos de participarem do ensino à distância. Embora atingir 74% dos estudantes com o ensino remoto seja certamente um sinal promissor, isso também significa que quase um quarto dos alunos no Brasil ficou sem suporte. Portanto, o acesso equitativo é uma questão fundamental para que o ensino a distância funcione para todos os estudantes.

Essas realidades são certamente difíceis de enfrentar, mas o Datafolha descobriu alguns lampejos de esperança: A maioria dos alunos continua a aprender, em grande parte devido à forte motivação dos professores e dos alunos, bem como ao apoio da família e dos pais. Nesta postagem do blog, destacamos detalhes de alguns dos indicadores de esperança que o estudo encontrou.

Indicadores esperançosos para o aprendizado dos alunos durante a COVID-19 no Brasil

Quando os professores são dedicados e engajados, o aprendizado pode acontecer: A dedicação e o envolvimento dos professores tiveram um impacto profundo no aprendizado dos alunos durante esse período. Graças ao compromisso inabalável de muitos professores e lideranças escolares que não mediram esforços para apoiar seus alunos durante esse período, 74% dos alunos de escolas públicas receberam algum tipo de atividade de aprendizagem remota. Isso marca uma mudança dramática e positiva em relação às experiências anteriores, quando os alunos brasileiros ficaram fora da escola por longos períodos. Antes da COVID-19, o fechamento inesperado de escolas significava que estudantes permaneceriam em grande parte sem o apoio das escolas em casa.

Um exemplo desses professores motivados é Fernando Moraes, um professor de história que, nos últimos 19 anos, lecionou para a sexta e sétima séries em São Paulo. Ao perceber o acesso limitado que seus alunos tinham às aulas remotas, ele fez uma parceria com uma estação de rádio local para oferecer um podcast como ferramenta de estudo e comunicação. A iniciativa reuniu professores de outras escolas do entorno. O programa é transmitido diariamente às 9 horas da manhã, e os alunos recebem materiais impressos para complementar seus estudos em casa.

O protagonismo estudantil é uma força poderosa e impulsionadora: O protagonismo estudantil faz uma grande diferença, apesar dos desafios que a COVID-19 apresenta. Willian Marciel, um jovem de 13 anos de Goiás, não tinha conexão com a Internet nem computador em casa e usou suas economias da coleta de latas de refrigerante nas ruas para comprar um celular. Todos os dias, Willian usava o Wi-Fi de um açougue local para apoiar seus estudos.

Embora nem todos os alunos tenham chegado a esses extremos, como Willian, a pesquisa Datafolha revelou que os alunos estão encontrando maneiras de se manterem envolvidos com o aprendizado. De acordo com os pais ou responsáveis que responderam à pesquisa, 82% dos alunos fizeram a maioria das atividades escolares enviadas pela escola. A maioria dos alunos acessou as atividades oferecidas por meio de algum dispositivo tecnológico (internet via celular ou computador, TV ou rádio) e a maioria desses alunos (84%) dedica mais de uma hora por dia aos estudos, enquanto 29% dedicam mais de três horas diárias. Vemos isso como um incrível testemunho das crianças e de sua motivação intrínseca juvenil para aprender, mesmo com tanta adversidade.

As famílias são essenciais para ajudar a apoiar o aprendizado de seus filhos: As famílias são apoiadores essenciais nas jornadas de aprendizado dos alunos, especialmente durante esse período. No entanto, muitas famílias lutam para equilibrar as demandas da administração doméstica com o tempo para monitorar, orientar e instruir seus alunos em casa. O estudo do Datafolha constatou que, embora mais da metade dos pais e responsáveis pesquisados acredite que seus filhos estejam motivados para aprender e estejam aprendendo, 31% temem que os alunos abandonem a escola se não puderem acompanhar as aulas em casa a longo prazo. Além disso, 58% dos pais consideram muito difícil para as crianças sob sua responsabilidade manter uma rotina de estudos.

No centro de nosso trabalho na Imaginable Futures está o desejo e o compromisso de criar um sistema educacional mais equitativo. Juntos, com parceiros comprometidos dos setores governamental, privado e social, podemos superar as barreiras das desigualdades geográficas, socioeconômicas e raciais para garantir que todos os estudante brasileiros possam chegar à escola, estar on-line e ter a oportunidade de aprender.

Erin Simmons e Nathalie Zogbi, Imaginable Futures

Reflexões e considerações finais

Cofinanciamos esse estudo longitudinal com a Fundação Lemann e o Itaú Social com o objetivo de equipar as Secretarias de Educação de todo o Brasil com dados sobre o alcance atual das atividades de aprendizagem remota e ajudar a informar suas estratégias futuras para apoiar estudantes durante a pandemia e depois dela.

Os dados foram coletados em maio por meio de pesquisa e incluem 1.028 entrevistas com pais ou responsáveis de 1.518 alunos de escolas públicas em todo o Brasil. Os relatórios com os resultados de cada um dos três estudos serão publicados e estarão disponíveis no outono de 2020. Mais informações sobre os resultados preliminares podem ser encontradas no relatório oficial e na CNN Brasil e na Veja.

Os resultados do primeiro de três relatórios, divulgados no final de junho de 2020, nos forneceram muitas informações sobre a situação atual do ensino à distância. O estudo deixa claro que as redes de escolas públicas, juntamente com parceiros do setor privado e social, tomaram medidas rápidas e abrangentes nessa pandemia para conectar os alunos e envolver as famílias. No entanto, mais de um quarto dos estudantes correm o risco de não se envolver com o aprendizado, de se desconectar da escola e, possivelmente, de abandonar o curso. Ainda assim, continuamos otimistas: As crianças e os educadores têm uma capacidade incrível de superar as adversidades e permanecer comprometidos com suas metas.

No centro de nosso trabalho na Imaginable Futures está o desejo e o compromisso de criar um sistema educacional mais equitativo. Juntos, com parceiros comprometidos dos setores governamental, privado e social, podemos superar as barreiras das desigualdades geográficas, socioeconômicas e raciais para garantir que todos os estudante brasileiros possam chegar à escola, estar on-line e ter a oportunidade de aprender.

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