Brasil
Conheça nossa nova liderança no Brasil
Uma conversa com Atila Roque sobre os esforços coletivos para imaginar uma sociedade que supere as desigualdades
Com três décadas de experiência nas áreas de direitos humanos, equidade racial, democracia e justiça social no Brasil e no mundo, nosso novo vice-presidente e diretor de programas no Brasil, Atila Roque, tem como visão um país mais generoso e acolhedor, especialmente para crianças e jovens.
Para Atila, chegar lá exige a mobilização e o engajamento mais amplos possíveis em todos os setores da sociedade, em um esforço coletivo — inspirado pela resiliência e determinação das comunidades negras, indígenas e quilombolas.
Leia abaixo nossa conversa completa com Atila.
A educação é a dimensão central no processo de promoção da cidadania plena — uma cidadania criativa e capaz de desenvolver todo o potencial dos indivíduos, independentemente de sua origem social.
Atila Roque
Dandara: Ao longo da sua trajetória, você atuou em diferentes agendas — da prevenção da violência e dos direitos humanos à equidade racial e à justiça social. Agora, ao assumir uma posição com foco em educação, que aprendizados dessas experiências você traz para esse trabalho?
Atila: Ao refletir sobre minhas décadas de trabalho em questões centrais relacionadas à equidade, à justiça social e à democracia, acredito ter extraído três lições principais:
A primeira diz respeito à natureza interseccional de cada uma dessas grandes questões que o Brasil enfrenta. O esforço para construir justiça social e democracia em um país como o Brasil, marcado pela violência e pelo racismo, sempre exigirá uma abordagem integrada que busque soluções a partir de uma perspectiva ampla, levando em conta as diversas camadas de desigualdades e privilégios.
A segundo destaca o papel central da participação ativa dos atores sociais diretamente envolvidos na mudança de políticas injustas. No Brasil, isso não é possível sem o empoderamento e a liderança daqueles que sofrem com essas desigualdades, incluindo os jovens.
A terceira lição é a mobilização e o engajamento — tão amplos quanto possível — de todos os setores da sociedade no esforço coletivo de imaginar e sonhar com uma sociedade que supere as múltiplas desigualdades que há muito tempo moldam o Brasil e suas instituições. A educação é a dimensão central no processo de promoção da cidadania plena — uma cidadania criativa e capaz de realizar todo o potencial dos indivíduos, independentemente de sua origem social.
Dandara: Você já trabalhou com muitas das organizações negras, indígenas e quilombolas que são parceiras da Imaginable Futures no Brasil. O que mais lhe inspira no trabalho desses parceiros?
Atila: O racismo e a violência são uma realidade inegável no Brasil. A profunda resiliência e determinação com que as comunidades negras, indígenas e quilombolas — por meio da luta contínua de suas comunidades e movimentos — têm resistido à violência sistêmica e à exclusão que ameaçaram suas vidas ao longo da história do Brasil inspiram profundamente minha perspectiva. O site Imaginable Futures apoia muitas dessas lideranças e alimenta meu próprio desejo de mudança.
Dandara: Qual você considera ser o papel da filantropia no apoio às lideranças, às organizações e aos movimentos que trabalham em prol de um futuro mais justo e democrático?
Atila: A filantropia privada pode desempenhar um papel importante na promoção da igualdade e da justiça social, por meio do fortalecimento da voz e da liderança social de atores coletivos que representam setores historicamente excluídos e marginalizados. No caso do Brasil, isso inclui pessoas de ascendência africana, incluindo quilombolas, povos indígenas e mulheres. Isso também exige repensar o papel que a filantropia desempenha em relação a essas comunidades: não vê-las simplesmente como beneficiárias de recursos, mas reconhecer seu conhecimento, experiência e liderança, e criar as condições para que elas definam prioridades, influenciem decisões e liderem as mudanças que afetam suas próprias vidas e comunidades.
Dandara: Quando você imagina o Brasil daqui a uma geração, que mudanças você gostaria de ver?
Atila: Gostaria de ver um país generoso e acolhedor, especialmente para suas crianças e jovens — um país que reconheça e se orgulhe da riqueza e da criatividade presentes no modo de vida e nas culturas dos povos negros e indígenas, confiante na força de suas crenças e convicções religiosas e na capacidade dessas populações historicamente marginalizadas de serem parceiras de pleno direito em um projeto nacional que incorpore todo o poder e a riqueza do Brasil.
Dandara: Por fim, o que tem inspirado sua imaginação ultimamente — um livro, uma obra de arte, uma conversa, uma música ou uma experiência?
Atila: Nos últimos anos, passei a conhecer muito bem o cotidiano e a experiência cultural das escolas de samba. Nesse processo, passei a compreender algo que antes não havia percebido com tanta intensidade — especialmente quando comecei a testemunhar em primeira mão o seu trabalho incansável para fortalecer suas comunidades.
Além de seus esforços intensos para promover as economias locais e iniciativas criativas em bairros da classe trabalhadora, as escolas de samba atuam como ferramentas poderosas de educação popular. Tem sido maravilhoso ver, por exemplo, como as culturas e as histórias das comunidades negras e indígenas ganharam visibilidade e um papel de destaque nos temas e nas histórias contadas pelas escolas de samba durante o Carnaval. Acredito que temos muito a aprender com as experiências das escolas de samba.